Para onde as aves migratórias foram e me levaram em 2020

O ano de 2020 começou prometendo. Primeiro, conhecemos e anilhamos um indivíduo híbrido de bem-te-vi-rajado no estado de Minas Gerais (que será história para outro post super interessante), e logo depois eu iniciaria uma viagem para o Estados Unidos para concluir as análises dos dados da minha tese de doutorado, com meu orientador Alex Jahn na Universidade de Indiana.

A viagem aconteceu em março e por um mês eu estive na agradável companhia do Alex e Shazeeda em Bloomington, cidade onde localiza-se o Campus da universidade. Bom, mas a pandemia estava começando por lá, então não consegui ter muito contato presencial com os pesquisadores. Porém, ainda assim eu tive oportunidade de apresentar meu trabalho para o grupo de pesquisas do qual o Alex faz parte e que é coordenado pela admirável e simpática Dra Ellen Ketterson. Tudo bem que tenha sido online naquele dia, mas ao menos ao longo daquele mês eu conheci o laboratório, auxiliei o Alex com o seu projeto dos sabiás americanos e conheci bastante o Campus da universidade. Essa viagem também me proporcionou conhecer outra pesquisadora incrível, a Dra Emily Cohen, passar momentos agradáveis com ela e sua família e conhecer seu trabalho. Resumindo, consegui fazer muitas das análises dos meus dados (ainda que em casa), muito campo de anilhamento e foi um mês de inspiração feminina! ❤

De abril até agosto, permaneci basicamente escrevendo a tese e finalizando um artigo que mostra a importância da ciência cidadã para conhecermos mais sobre as aves migratórias. Esse artigo está em revisão pela revista e logo conto mais sobre ele. Então, enfim o grande dia chegou! Dia 22 de setembro eu defendi o doutorado e recebi meu título de doutora em zoologia! 

Claro que o trabalho não acabou. Em outubro, após um ano que colocamos GPS nos bem-te-vi-rajados (Myiodynastes maculatus), eu consegui recapturar as aves e ficamos sabendo para onde elas foram! Um momento muito esperado, pois não se sabia para onde elas viajavam no outono e inverno. E que viagem! Dos dois indivíduos recapturados, uma fêmea que saiu de Rio Claro, SP, viajou por 30 dias por quase 3 mil km até a Amazônia! Ela passou o outono e o inverno no norte do Pará (Floresta Nacional de Mulata), e retornou para Rio Claro na primavera. Já a outra ave que mora no Parque do Carmo, na cidade de São Paulo, teve a viagem um pouco mais longa, de 40 dias, chegando até a Floresta Nacional de Roraima, no extremo norte do Brasil. É interessante pensar como um passarinho de menos de 50 gramas (o peso de uma caixinha de creme dental) consegue fazer uma viagem de mais de 3 mil quilômetros e repetir isso todos os anos! Essa notável jornada foi até notícia de jornais.

Rota migratória dos bem-te-vis-rajados registradas pelos GPSs

Esse aparelho que colocamos em aves pequenas, como é o caso de bem-te-vi-rajado, não transmite sinal GPS á distância. O aparelhinho que usamos pesa apenas 1 grama (do tamanho de uma moeda de 10 centavos) e a tecnologia ainda não permite aparelhos tão pequenos com transmissão de sinal em tempo real. Só podemos colocar um acessório na ave que tenha até, no máximo, 3% do seu peso (alguns trabalhos já falam em até 5%). Se fizermos uma analogia conosco, é como se uma pessoa de 70kg tivesse que carregar uma mochila de 3kg nas costas por um ano. Como não podemos voar, então imagina se tivéssemos que, de uma hora para outra, disparar em corrida com alguns quilos a mais nas costas 🤔 Então é justo não ser muito pesado.

Além dessa descoberta fantástica, seguimos com o trabalho de captura e marcação dos rajados e monitoramento de ninhos. Esse ano ainda anilhamos quatro indivíduos em uma localidade nova, Itajubá no sul de Minas Gerais, e também tenho acompanhado vários cidadãos cientistas monitorando ninhos de bem-te-vis-rajados em suas casas! 💚 Tem casal que inclusive já está na segunda ninhada no mesmo ano. Além disso, como ficamos muito mais tempo em casa, aproveitei para produzir conteúdo em formato de vídeo animado para falar mais sobre o que é migração das aves, efeitos da urbanização nas aves migratórias e residentes e a viagem das aves migratórias para a lua. Se gostar, curta e compartilhe, e siga a página no YouTube para receber o alerta para assistir ao material que estou preparando.

Ninhos preparados com muito carinho pelos observadores de aves: Lena, Elvis Japão, Carlos (Ferreirinha) e Armando

Apesar de não ter sido um ano fácil para ninguém posso dizer que quanto a pesquisa evoluímos bastante. Que 2021 venha cheio de boas notícias para todos! Boas festas. 🎄🎁✨

Conversa de um botânico e uma ornitóloga sobre ciência cidadã

Juntar um botânico e uma ornitóloga para uma conversa pode se tornar um bate-papo muito agradável e produtivo.

No dia 28 de maio de 2020, eu conversei com o doutor em botânica Rodrigo Polisel que tem uma página no YouTube cheia de conteúdos interessantes e educativos sobre botânica. E que agora ele também está convidando pesquisadores de outras áreas para compartilhar com o público suas experiências.

A conversa foi principalmente sobre as aves migratórias, a importância da vegetação e como o cidadão cientista pode contribuir para o conhecimento da biodiversidade.

Você pode assistir esse gostoso bate-papo em https://youtu.be/B0BulSIejYc

Como observar aves pode ajudar a ciência?

Aproveite a quarentena para observar as aves da cidade e compartilhe!

“Observadores de aves, além de fazerem suas listas de espécies e tirarem fotos incríveis para suas coleções particulares, também acabam contribuindo com a ciência. Essa contribuição na maioria das vezes não é direta ou intencional por parte do observador, mas gera dados que podem ser fundamentais para os pesquisadores, colaborando para responder questões biológicas e ecológicas das aves. Chamamos isso de Ciência Cidadã, ou ciência colaborativa.”

Aproveite o período que está passando mais tempo em casa para observar aves. Essa atividade pode ser um momento de relaxamento para você e de aprender algo novo (como comportamento, tipo de alimente favorito, cores das penas que você nunca observou antes, interação com outras aves…). E se você posta essas observações em plataformas web de ciência cidadã você ainda pode ajudar a ciência!

Lei mais no artigo que escrevi para o Portal Unesp

https://www2.unesp.br/portal#!/noticia/35687/conectar-com-a-natureza-e-ajudar-a-ciencia-durante-a-quarentena

Procura-se bem-te-vis-rajados anilhados

Os bem-te-vis-rajados estão chegando na região sudeste do Brasil. Desde o começo de setembro eles estão sendo registros no Estado de São Paulo e em breve eles estarão por toda a região sul e sudeste (eBird).

Já foram anilhados com anéis coloridos 54 bem-te-vis-rajados (Myiodynastes maculatus solitarius) nas cidades de São Paulo, Rio Claro, Marília, Jundiaí e Guararema, desde o início do projeto em 2016.

Se você avistar um desses indivíduos anilhados mande uma mensagem AQUI. Precisamos encontra-los para saber mais sobre esse comportamento fascinante que é a migração.

Se conseguir tire uma foto, pois a cor da anilha indicará onde ele foi anilhado.

Bem-te-vi-rajado ficando famoso

Divulgar um projeto de pesquisa é essencial para que as pessoas entendam os motivos pelo qual estudamos um determinado tema, espécie, ambiente, produto, comportamento… Importante também é que essa divulgação tenha linguagem simples e acessível para que qualquer um entenda.

Nem sempre usar a linguagem certa é fácil para quem não tem formação na área de comunicação e por isso a ajuda de profissionais na área de comunicação é bem-vinda. No mês de junho diversas mídias de comunicação fizeram postagem sobre o projeto dos migrantes graças a uma reportagem feita pela equipe de comunicação do Portal da Unesp.

Com uma linguagem simples e atraente a reportagem fala sobre alguns dos principais focos da pesquisa: A importância das áreas verdes urbanas para as aves migratórias “Os parques urbanos são um bom exemplo disso. Pense em uma árvore que o bem-te-vi-rajado usou de ninho no ano passado e agora ele voltou para o mesmo local. Se a árvore e seu ninho não estiverem mais lá é como se você viajasse de férias e quando voltasse não encontrasse mais sua casa, seu lar. Ele tem que se reorganizar e buscar outra árvore ou mesmo outro parque, e nisso ele pode perder o tempo de se reproduzir naquele ano”. E a importância da ciência cidadã no conhecimento das espécies “A ajuda do cidadão comum no reconhecimento das espécies é uma forma de conseguirmos dados, mas, mais importante ainda, é também uma ferramenta que ajuda no engajamento das pessoas com a conservação das espécies”

A reportagem teve repercussão sendo divulgada também na Revista Galileu, Jornal Estadão online e impresso de domingo e nos sites da ISTOÉ, Terra, Ambiente Brasil e R7.

Pesquisas como essa só são possíveis graças ao apoio das agências de fomento que financiam as bolsas de mestrado e doutorado no nosso país. A minha pesquisa é financiada pela CAPES e a do meu orientador que possibilitou a compra dos GPSs pela FAPESP

Agora vamos torcer para que os bem-te-vis-rajados voltem em outubro nos contando um pouco de suas incríveis trajetórias.

Que aves migram?

Estamos em mais uma fase da pesquisa, no qual queremos entender quais espécies de aves migratórias usam parques urbanos na Mata Atlântica do sudeste. A grande parte das aves migratórias dessa região são migrantes austrais, ou seja, se reproduzem na região continental temperada da América do Sul e migram para o norte durante o inverno austral. No entanto, nesse momento focaremos apenas nas espécies da família Tyrannidae e Turdidae. 

A família Tyrannidae é composta pelos bem-te-vis, guaracavas, peitica etc, muitos dos quais nós já conhecemos por usarem parques urbanos na cidade de São Paulo, por exemplo. Escolhemos essa família, pois cerca de um terço dos migrantes austrais são da família Tyrannidae e o conhecimento sobre o movimento migratório dessa família no Brasil ainda é muito pequeno. 

Já as espécies de Turdidae, os famosos sabiás (gênero Turdus ou no inglês Thrush), são um grupo ideal para responder algumas questões sobre urbanização, pois 1) as 65 espécies estão amplamente  distribuídas em todo planeta e se reproduzem desde a Patagônia (Austral Thrush) até o Alasca (American Robin); 2) são bem conhecidos por ocorrem em cidades inclusive usando jardins residenciais; 3) as espécies migratórias exibem variadas estratégias de migração, fazendo desde migração parcial, altitudinal ou mesmo entre continentes. Mais informações em TurdusNet

Se você tem experiência com as aves da Mata Atlântica do Sudeste brasileiro e puder nos ajudar responda o questionário, clicando aqui

 

 

CHESSER, R. T. (1994). Migration in South America: an overview of the austral system. Bird Conservation International. 4: 91-107.

CUETO, V.R. & JAHN, A.E. (2008). Sobre la necesidad de tener un nombre estandarizado para las aves que migran dentro de America del Sur. Hornero 23(1): 1-4

Aves litorâneas do Rio Grande do Sul

A região litorânea do Rio Grande do Sul é um dos locais do nosso país com uma das maiores concentrações de aves migratórias vindas da América do Norte.

O Parque Nacional da Lagoa do Peixe (PNLP) – RS, é uma unidade de conservação onde grande parte dessas aves podem ser encontradas. Lá é possível observar espécies como: vira-pedra (Arenaria interpres), piru-piru (Haematopus palliatus), maçarico-branco (Calidris alba) – que se juntam em grupos de mais de 5mil indivíduos, ou ainda o maçarico-acanelado (Calidris subruficollis) – uma espécie de ave limícola com cerca de 60 gramas que viajar mais de 5400 km (IWSG) todos os anos.

Junto dessas espécies ainda encontramos flamingos, colhereiros, cisne-de-pescoço-preto, tinta-reis, alumas marrecas entre outros. Essa região tem baixa concentração humana, o que contribui para o uso mais equilibrado do ambiente entre as pessoas e as aves. Mas na região também são encontradas espécies com maior tolerância a presença humana, como quero-quero (Vanellus chilensis) e gaivotão (Larus dominicanus), sendo esse último adaptado ao convívio humano e vem até sendo considerado praga em algumas cidades litorâneas.

Na Lagoa do Peixe ela convive em harmonia com as outras aves e tem uma maneira peculiar de abater sua presa. Veja o vídeo

https://www.wikiaves.com.br/wiki/gaivotao

https://www.hbw.com/species/kelp-gull-larus-dominicanus

Para onde vão os bem-te-vis-rajados?

Bom, essa é uma pergunta que todos me fazem e eu sempre digo: talvez pro Norte e Nordeste do Brasil. Mas na real… eu também não sei!

Os dados de ciência cidadã (eBird e Wikiaves) têm mostrado que eles estão no sul e sudeste do Brasil entre os meses de agosto e março, mesmo período em que as populações do norte e nordeste desaparecem ou diminuem. Corroborando com o que já foi descrito na literatura. No entanto, algumas dúvidas ainda persistem: Qual será a rota que fazem? Para onde vão os indivíduos dos parques urbanos de São Paulo? Será que ficam o período de invernada inteiro no mesmo lugar? Será que fazem muitas paradas pelo caminho?…

Para dentar desvendar o mistério, nós colocamos GPSs em alguns rajados e quando eles voltarem precisaremos novamente recapturarmos para pegar esse pequenino aparelho para baixar os dados.

Agora é torcer para que em Setembro de 2019 eles voltem nos contando um pouco da sua jornada.

Veja o vídeo da fixação do GPS em um indivíduo fêmea em um parque da cidade de São Paulo.

Bem-te-vis-rajados voltam pra casa

Os bem-te-vis-rajados voltaram! E podem ser filopátricos.

Você sabe o que é Filopatria ?

Esse termo que é usado em Zoologia (ramo da ciência que estuda os animais) refere-se ao comportamento que alguns animais têm de retornarem da migração para se reproduzirem no mesmo local de onde partiram. A filopatria pode ser natal, na qual o indivíduo volta ao local onde nasceu, ou ainda a filopatria pode ser expressada durante a rota migratória, quando a espécie faz uma parada para repouso ou alimentação sempre no mesmo local.

A filopatria também é chamada comumente de “fidelidade de sítio”  e pode trazer alguns benefícios para indivíduos que têm esse comportamento*, uma vez que:

1- Conhecem a área porque já utilizaram e isso auxilia na interação competitiva com outros indivíduos ou espécies do local;

2- Conhecem o local e sabem onde buscar recursos;

3- E têm maior probabilidade de encontrarem parceiro reprodutivo quando chegam da migração, sendo que talvez reencontrem o mesmo parceiro do ano anterior.

Embora suspeitávamos que os bem-te-vis-rajados voltassem sempre ao mesmo local após a migração, isso nunca havia sido testado. Agora nós conseguimos reencontrar os rajados anilhados no mesmo local em que foram marcados no período reprodutivo anterior (outubro a janeiro), ou seja, eles podem ter fidelidade de sítio reprodutivo.

Agora o próximo passo é tentar descobrir para onde eles vão e qual a rota que fazem para chegar ao destino.

Veja o vídeo

*Jahn et al 2009 BREEDING AND WINTER SITE FIDELITY AMONG ELEVEN
NEOTROPICAL AUSTRAL MIGRANT BIRD SPECIES. ORNITOLOGIA NEOTROPICAL 20: 275–283

Aves migrantes voltam pra casa

   A primavera chega no dia 23 de setembro e para aproveitar esse período de paisagens  coloridas algumas aves migrantes retornam ao lar.

   As aves migratórias que usam parques urbanos do sudeste brasileiro aproveitam esse período, onde a oferta de alimento (insetos e frutos) é mais abundante, para encontrar (ou reencontrar) o parceiro e se reproduzir. Período que começa, dependendo da espécie, em agosto e vai até março do ano seguinte, onde os filhotes já criados também entram na próxima jornada migratória.

   As tesourinhas já chegaram em várias cidades do Estado de São Paulo e Minas Gerais, e os suiriris também já podem ser encontrados por quase todo o sudeste do Brasil. No entanto, os peiticas e bem-te-vi-rajados ainda estão chegando (foto). Será que essas espécies viajam tão longe e voltam pro mesmo parque que moraram no verão passado?

  Foram anilhados 31 bem-te-vi-rajados nas cidades de Guararema, Rio Claro, Jundiaí, Marília e São Paulo. Na cidade de São Paulo os anilhados foram em maior número e estavam nos parques: Parque Carmo, Horto Florestal, PEC Engordador, Parque Ecológico do Tietê, Parque Cemucan, Parque Piqueri e Instituto Butantan. Se você for em algum parque e encontrar um bem-te-vi-rajado anilhado entre em contato por e-mail (barbosa.karlla@gmail.com) esse dado vai ajudar a identificarmos se ele tem fidelidade ao local de reprodução e a fazer novas perguntas, como “para onde vão exatamente?”

 

Myma_São Carlos_Augusto
Esse já chegou em São Carlos, cidade do interior de São Paulo. Foto: Augusto Batisteli

 

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